Assim que começa a ler, surgem as perguntas: o que é exatamente um terminal de GNL, por que é importante e como processa esse gás frio a -160 °C? Se procura respostas claras, pormenorizadas e sem terminologia técnica desnecessária, este artigo é para si.
O que é um terminal de GNL?
Um terminal de GNL — também conhecido como terminal de regaseificação ou central de regaseificação— é uma instalação industrial cujo principal objetivo é receber Gás Natural Liquefeito (GNL), armazená-lo de forma segura e convertê-lo novamente em gás, para ser distribuído à rede ou para consumo local.
Estes terminais podem ser:
- Terrestres, construídos em terra firme, com tanques criogénicos e tubagens para regaseificação.
- Flutuantes ou FSRU (Floating Storage and Regasification Units): unidades flutuantes com as mesmas funções, sem necessidade de uma central fixa.
Tanto o primeiro como o segundo tipo permitem que o GNL, liquefeito a temperaturas extremas, retorne ao seu estado gasoso e possa ser utilizado em residências, indústrias ou redes de gás.
Etapas do funcionamento de um terminal de GNL
1. Receção e descarga
Quando chega um navio de transporte de GNL, este é ligado por braços criogénicos ao cais do terminal para transferir o GNL para tanques especializados.
2. Armazenamento criogénico
O GNL é armazenado em tanques duplos, bem isolados, concebidos para manter temperaturas próximas de -160 °C. Estes tanques estão protegidos com materiais como a perlite e o aço especial para evitar fugas e perdas térmicas.
3. Boil-off e relíquidos
Durante o armazenamento, uma parte do gás evapora-se (fenómeno de “boil-off”). Este gás é misturado no equipamento de reliquefacção, utilizando a sua energia para manter o equilíbrio no interior da cuba e evitar desperdícios.
4. Regaseificação
A chave do processo: o GNL é bombeado através de vaporizadores – utilizando água do mar ou ar – para aumentar a temperatura para 0-10 °C, transformando-o novamente em gás natural. Veja aqui:
- Os tubos que transportam o GNL são banhados em água que, através da troca de calor, reduz a sua temperatura em alguns graus
- O gás resultante é pressurizado e preparado para ser injetado na rede
5. Medição, regulação e odorização
Antes de chegar aos consumidores, o gás passa por estações onde o seu fluxo é medido, a pressão é regulada e é adicionado um odorante para detetar possíveis fugas
6. Injeção e distribuição
Por último, o gás natural entra nos gasodutos para ser distribuído a clientes residenciais, industriais ou centrais elétricas. Em alguns casos, é transportado em camiões-cisterna como parte de um gasoduto virtual
Para que serve um terminal de GNL?
Os terminais de GNL têm três funções principais:
- Garantir o fornecimento de energia quando não existem gasodutos ou nos picos de procura.
- Melhorar a segurança do abastecimento, uma vez que o GNL pode ser armazenado e regaseificado consoante as necessidades.
- Assegurar a flexibilidade do sistema, permitindo a adaptação às flutuações do mercado e do clima
Tipos de terminais
- Terrestres: com infraestrutura fixa e grande capacidade de armazenamento.
- Flutuantes (FSRU): versáteis, de implantação rápida, ideais quando a construção de uma central fixa é complexa
- Centrais satélite: funcionam ao lado de um terminal principal, mas são dedicadas ao abastecimento local
Benefícios principais
- Gestão dos picos de consumo: permitem cobrir a procura máxima no inverno ou em situações de urgência.
- Redução da dependência energética: facilitam as importações de diferentes fornecedores.
- Sustentabilidade: o GNL emite menos 20-25% de CO₂ em comparação com o fuelóleo, e quase elimina o NOx, SOx e partículas.
Desafios e aspetos críticos
- Impacto ambiental: a utilização de água do mar para vaporização pode afetar os ecossistemas marinhos nas proximidades
- Custos de infraestrutura: é necessário um investimento elevado em tanques criogénicos, sistemas de bombagem e vaporizadores
- Segurança operacional: requer medidas rigorosas para controlar a temperatura, a pressão e possíveis fugas (por exemplo, odorização).
Como é que se compara com os outros sistemas?
- Gasodutos: melhores para um consumo constante, mas carecem de flexibilidade e de uma capacidade de armazenamento eficiente.
- Biogás ou hidrogénio: alternativas emergentes; o GNL serve de ponte energética enquanto estas tecnologias amadurecem.
- GNC (Gás Natural Comprimido): útil para distâncias curtas/unidades móveis, mas não otimizado para armazenamento e transporte em massa
Casos reais em Espanha
Em Espanha, existem terminais em Barcelona, Huelva, Cartagena, Bilbau, Sagunto e Mugardos, com uma capacidade superior a 2,3 milhões de m³ e uma capacidade de emissão superior a 6,5 milhões de m³/h. Estes centros foram fundamentais para:
- Redundância do abastecimento.
- Acesso de terceiros ao mercado regulado e flexível.
Futuro e tendências
- Expansão dos terminais flutuantes, opções rápidas e menos dispendiosas.
- Desenvolvimento do gasoduto virtual, que leva o GNL a áreas remotas sem redes.
- Integração com energias renováveis e hidrogénio, para reduzir ainda mais a pegada de carbono.
- Melhoria da eficiência, com sistemas de vaporização do ar, recuperação de calor e menor impacto ambiental.
Resumo em quadro
| Fase/Elemento | Função chave |
| Receção | Descarga criogénica do navio |
| Armazenamento | Tanques isolados a -160 °C |
| Boil-off / Reliquefacção | Controlo do gás evaporado, redução das perdas |
| Vaporização | Conversão em gás utilizando água do mar ou ar |
| Medição e regulação | Controlo do fluxo, da pressão e da adição de odorantes |
| Distribuição | Injeção em gasodutos ou transporte por cisternas |
Um terminal de GNL é muito mais do que uma “central de gás”: é um pilar da segurança energética, da flexibilidade e da sustentabilidade. Ao compreender o seu funcionamento, ficará com uma ideia do motivo pelo qual estamos a investir tão fortemente nesta infraestrutura, à medida que exploramos o caminho para uma energia mais limpa.